O "Negão da Péda" me disse que Papai Noel não tem visitado a periferia. É que na favela não tem chaminé nem lugar para colocar trenó. Além disso, no subúrbio para entrar precisa ter crachá. Não é recomendado chegar no meio da noite sem ser morador da área ou conhecido dos moradores. Tem outro problema, depois das 19h ninguém sai de casa e quem sai só sai a serviço (do tráfico). Criança na periferia não tem brinquedo. Filho de pobre brinca com seringa usada, achada no lixão, bola de meia, boneca sem cabeça, ou sem perna, espingarda de madeira, cápsula de fuzil e pipa.O que se espera na periferia é que de uma hora para outra apareçam uns ricaços cheios de boa vontade, descarregando a consciência na distribuição de brinquedos que seus filhos não querem.
Se espera também a presença de alguns políticos, distribuindo bola e boneca de plástico. Falsos moralistas sempre aparecem, com suas cestas básicas e seus panfletos proselitistas.
Papai Noel não combina com a paisagem da periferia. Destoa pelas vestes e pela pompa. Para a grande maioria dos moradores o preço da sobrevivência é a rendição. Rendem-se ao status quo e a lei do silêncio. Remdem-se a compra de voto e a aristocracia.
Já faz tempo que meus filhos não me perguntam por Papai Noel. Eles, como eu, não acreditam em duendes, políticos, burocratas, moralistas e seres fantásticos. Seria de bom grado que na periferia fosse o calçamento, a escola, o posto de saúde e a assistência social, fosse o que sobra no shopping e nas mesas fartas da hight society.
Eu sei, eu sou pessimista. Mas, tenham todos os poucos leitores desse blog um Natal feliz, aproveitem para rezar pelos que nunca terão 1% da sua felicidade.
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